"Noivo Neurótico, Noiva Nervosa” (Annie Hall, 1977) é um dos principais filmes da carreira de Woody Allen, apesar de não figurar na lista dos preferidos do próprio diretor. É um longa que marca o início da segunda fase da carreira de Allen, período que é considerado por muitos críticos como ponto mais alto da trajetória do cineasta. Até hoje, o filme aparece em várias eleições de maiores clássicos do cinema mundial, inclusive sendo lembrado como uma das melhores comédias do diretor. Não é à toa que “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa” é o filme mais premiado da carreira de Allen, que rendeu a ele as três primeiras indicações ao Oscar dentre 21 que ele teria ao longo da carreira. O filme foi vencedor do Oscar em todas as categorias que concorreu (Melhor Roteiro Original, Melhor Direção, Melhor Filme, e o prêmio de melhor atriz para Diane Keaton, que realmente teve uma atuação brilhante). Um detalhe interessante sobre a premiação: o Oscar daquele ano aconteceu numa segunda-feira, dia em que todas as semanas o diretor tocava clarineta em um pub de Nova York, e por esse motivo ele não compareceu ao evento.A história do filme é sobre o relacionamento amoroso de Alvy Singer (Woody Allen), um comediante de programas de Tv, judeu, neurótico, inseguro e cheio de obsessões e manias, e Annie Hall (Diane Keaton), uma cantora meio hippie em início de carreira. Após certo tempo, os dois resolvem morar juntos e aí que começam a aparecer os primeiros problemas conjugais e as brigas se tornam mais constantes, até que o casal resolve se separar (fato que o espectador já sabe desde a primeira cena).
O desenrolar da história se dá de forma brilhante, afinal o roteiro é muito bem escrito, e as falas são repletas de sarcasmos (como por exemplo, nas primeiras cenas da infância de Alvy, que mostra a casa dele embaixo de uma montanha-russa). O final não poderia ser melhor: Allen trabalha o filme todo analisando a inconstância dos relacionamentos humanos em meio à sociedade moderna e em crise, para concluí-lo de forma realista, interessante e nada romântico. Aliás, finais realistas é uma característica marcante em quase todos os filmes de Allen, mesmo quando ele trata da temática do amor.
“Noivo Neurótico, Noiva Nervosa” começa e termina com narrações do personagem principal, interpretado pelo próprio Allen. A cena inicial, com Alvy falando diretamente para a câmera, situa o espectador e já informa que ele e Annie não estão mais juntos. A partir disso, Alvy começa a relembrar sua infância e a falar características marcantes de sua personalidade. Nesse momento, já conseguimos perceber que o personagem é tão neurótico quanto Allen; aliás, é interessante notar que Alvy tem diversas semelhanças com o diretor, afinal, ambos são judeus, escritores, tem uma relação com a comédia (Allen também trabalhou como comediante antes de virar cineasta), são neuróticos, obcecados e pessimistas. Em determinada cena, Alvy comenta com Annie sua visão pessimista sobre a vida e diz que existem as pessoas horríveis (aquelas com problemas terminais, como cegueira ou com alguma deficiência) e as pessoas infelizes (todo o resto da humanidade), e que todos deveriam agradecer por serem apenas infelizes.
Os três fragmentos do filme que nós consideramos essenciais para o entendimento da história são: 1- a primeira cena do longa: o monólogo de Alvy, que é quando o espectador começa a perceber as principais características do protagonista, sua visão sobre relacionamentos e mulheres, e os principais acontecimentos de sua infância que marcaram sua personalidade, e é nessa hora que a gente começa a fazer parte da trajetória de Annie e Alvy; 2- a cena em que Alvy e Annie se conhecem: não tem muito o que se explicar sobre essa sequência, afinal se não fosse por ela, nada na história teria acontecido, além de ter sido uma cena muito bem construída, de forma bem delicada; 3- as duas cenas em que Annie e Alvy estão conversando com seus respectivos terapeutas: é nesse momento que eles percebem que o relacionamento deles já não é tão bom quanto antes, que os momentos bons estão diminuindo com o tempo, e depois, tudo isso vai culminar no fim do namoro deles.
O longa possui uma história não-linear. Ele começa com Annie e Alvy juntos, porém já em crise, para depois explicar como os dois se conheceram, para a partir daí o filme seguir uma ordem cronológica. A cena do primeiro encontro deles no ginásio de tênis é uma das mais engraçadas do filme. Diane Keaton arranca risos dos espectadores com sua Annie confusa e atrapalhada. Logo depois, na casa dela, acontece uma cena bastante interessante: os dois estão conversando sobre fotografia, mas enquanto falam uma coisa, pensam em outra, ou seja, há duas legendas para o leitor ler na tela: uma da fala do personagem, e outra de seu pensamento.Um recurso utilizado diversas vezes durante a produção (e usado com maestria por Allen, diga-se de passagem) são os flashbacks. A todo instante são recordadas cenas dos relacionamentos anteriores de Annie (por exemplo, com um ator de teatro), dos dois casamentos fracassados de Alvy (aparecem flashbacks até de como Alvy conheceu uma de suas ex-mulheres), e até mesmo da infância do protagonista (como a cena em que aparece ele na escola). O que mais chama atenção nos flashbacks é a presença dos personagens atuais nas cenas do passado, comentando sobre o fato, como se estivessem assistindo ao que já havia acontecido. É como se os personagens atuais se colocassem na posição do espectador de ver e emitir opinião sobre o passado. Mas vai além disso, pois eles são mostrados dentro das cenas, porém sem o poder de interferir sobre elas. A posição da câmera em diversos momentos também merece ser comentada: Alvy fala com freqüência olhando para a câmera, como se estivesse dialogando com público. Outro ponto importante é a câmera na posição do olhar do personagem (por exemplo, na cena que o casal passeia pela praia), ou seja, o espectador vê aquilo que Annie e Alvy estão vendo. Isso aproxima o público da história do casal, que acaba se envolvendo em um romance simples, sincero e bem construído. Dessa forma, o espectador se envolve na trama, se identifica em várias situações e acaba rindo dos problemas que os casais modernos enfrentam para ter sucesso num relacionamento. Esse é um grande mérito do diretor: conseguir colocar na tela situações do cotidiano, de forma bem humorada, sem deixar de fazer uma análise profunda sobre os relacionamentos humanos. Aliás, uma das características mais marcantes da carreira de Allen é essa, a abordagem realista que ele dá à relação entre as pessoas.
Da metade para o fim do filme, percebe-se um maior número de cenas curtas e rápidas. Esse aspecto dá maior dinâmica ao filme e o torna mais leve de assistir. Além disso, é interessante mencionar que mais para o final, personagens estranhos começam a se meter na história, dando conselhos ao protagonista, como na cena em que Alvy anda na rua e um casal e uma senhora dão palpites sobre sua vida amorosa.
As atuações são impecáveis: Allen, com sua fala apressada e com características parecidíssimas com as de Alvy, cria um protagonista muito interessante, confuso e paranóico com suas manias. Alvy nos faz rir com seus problemas, como sua neurose de não entrar em sala de cinema se o filme já tiver começado. Uma das cenas mais legais e engraçadas do filme é quando eles estão na fila do cinema e Alvy se irrita com os comentários do cara que está atrás deles. As expressões faciais de Alvy são muito divertidas. Já Diane Keaton dispensa comentários. Não ganhou o Oscar à toa. Annie é divertida, complicada e muito mais despojada que Alvy. E Diane impôs uma interpretação tão apaixonante, que é difícil não se encantar por Annie.

É com esse filme que fica claro que Allen abandonou aquele humor escrachado e debochado que o havia consagrado até então em filmes como “Tudo que você sempre quis saber sobre sexo, mas tinha medo de perguntar”. Em “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa” o humor adotado é mais sarcástico, diferenciado, e focado na psicologia e complexidade dos relacionamentos humanos. É nessa produção também que se inicia a longa parceira de sucesso entre Woody Allen e o diretor de fotografia Gordon Willis. Vale mencionar o belíssimo trabalho de Gordon, que proporcionou ao filme uma iluminação muito boa - como por exemplo as cenas de sexo entre Alvy e Annie em que a iluminação era bem mais escura que o normal.
A trilha sonora é quase ausente durante todo o filme. Ela aparece apenas no final, para dar um toque especial ao encerramento da história. Allen gosta de escolher ele mesmo as músicas de seus filmes e nesse não é diferente. Por mais que a trilha sonora não seja essencial para o entendimento da história, ela está lá marcando presença, do jeito que o diretor gosta.
O grupo escolheu esse filme por ele ser considerado um dos mais importantes da carreira de Allen. Foi o longa que o consagrou perante o mundo todo e que lhe rendeu três Oscars. Sem contar, é claro, a belíssima história construída pelo diretor e o roteiro cheio de genialidades típicas de Woody Allen. Não poderíamos escolher um filme com pouca importância para esse estudo. Ao percebermos o marco na carreira de Allen que “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa” representou, não tivemos dúvidas de que este seria o escolhido para esta análise. Além do filme ter agradado a todo o grupo.
Para finalizar, como disse várias vezes Alvy Singer – parafraseando Groucho Marx: “Não quero pertencer a um clube que aceite para membro alguém como eu”.
Por Cromo Produções
aqui diz q o filme escolhido é annie hall...
ResponderExcluirse quiserem dividir o grupo para este exercicio, sem problemas. só avisem...
e só posso considerar as postagens assinadas, conforme combinado. não apenas " a produtora", ok?
Na verdade foi apenas uma falta de comunicação entre o grupo, mas todas vamos fazer Annie Hall mesmo, sem dividir o grupo!
ResponderExcluirMas profe, o estudo do diretor e do filme não era pra ser um trabalho do grupo todo? Achei que era essa a intenção, por isso fizemos todas juntas os estudos postados aqui!
Tabata