“A realidade é um lugar muito chato, mas é o único onde eu posso comer um bom bife!”Woody Allen é um gênio. Isso muita gente concorda e afirma categoricamente. Porém, após dirigir 40 filmes em toda sua carreira, ele ainda se mantém muito crítico em relação a si próprio. De todos os filmes que dirigiu, apenas em três deles ele não mexeria em nada: Maridos e Esposas (1992), Matchpoint (2005) e A Rosa Púrpura do Cairo (1985). Esse último, segundo Allen, é seu preferido. Bom, se o próprio diretor e roteirista do longa afirma isso, quem sou eu pra discordar né? Assino embaixo as palavras de Allen. De todos os seus filmes que eu já vi, A Rosa Púrpura do Cairo é o melhor disparado. E por vários motivos: direção, roteiro, cenários, atuações, enquadramentos, entre outros. Tudo deu certo nessa produção. Até hoje é difícil encontrar alguém que não tenha se encantado com a história do longa, que é praticamente uma unanimidade quando se fala dos melhores filmes da carreira de Allen.
“Para mim, a fantasia é que é boa. A realidade não é nem um pouco atraente”
Usando as palavras do próprio diretor que tem tudo a ver com o longa, vamos começar a falar da história de “A Rosa Púrpura do Cairo”, que se passa numa área pobre de New Jersey, na década de 30, em plena Depressão Econômica nos Estados Unidos. Cecília (Mia Farrow, que na época estava no auge de seu casamento com Allen) é uma garçonete que trabalha muito para sustentar seu marido bêbado e desempregado, Monk, (Danny Aielo), que frequentemente bate nela e a trai com outras mulheres. Cecília, infeliz, tenta fugir dessa vida, mas nunca consegue. Sua válvula de escape para os problemas é ir ao cinema de sua cidade ao menos uma vez por semana. Encantada pelos filmes que vê, pelas histórias e romances, Cecília vê no cinema o único momento de prazer de sua vida. Quando o filme “A Rosa Púrpura do Cairo” estréia, ela logo se apaixona pela história e em uma mesma tarde, assiste a cinco sessões, pois também fica admirada pelo galã do longa, Tom Braxter (Jeff Daniels). Até que de repente, o impossível acontece! Tom começa a falar com Cecília no meio do filme e sai da tela para encontrá-la. Os dois se apaixonam e começam a viver um romance um tanto complicado, já que Tom não está acostumado com os acontecimentos do mundo real. Enquanto isso, os outros atores do longa ficam perdidos sem Tom e impedidos de dar continuidade na história. Pronto! A confusão está formada e se espalha até chegar aos ouvidos dos produtores do filem, que ordenam que o ator que interpretou Tom, Gil Sheperd (também Jeff Daniels), vá até New Jersey resolver a situação. Gil e Cecília se conhecem e também se encantam um pelo outro, já que a jovem sempre foi fã do ator. Aí se desenrola o principal conflito criado por Allen: dois personagens apaixonados por Cecília, um real e outro não.
“A Rosa Púrpura do Cairo” apresenta um retrato das relações humanas (detalhe quase sempre presente nos filmes do diretor), usando características das comédias fantásticas dos primeiros filmes de Allen. Quando ele usa a fantasia no momento em que o personagem sai da tela para viver um romance com uma pessoa “real”, Allen realiza um desejo que todo mundo já sentiu alguma vez na vida: de que as coisas fossem tão lindas e perfeitas como são no cinema. Mas ao construir isso, ele logo em seguida, quebra. Por quê? Porque ele mostra que o que é fantasia é apenas isso, não se adapta ao mundo real e não tem como pertencer a ele, ou seja, algo sempre estará faltando quando você vive de sonhos e fantasias. E para completar ainda mais essa visão, o final da história é extremamente realista. Todo o romance que o filme mostrou é desfeito com um final impactante para quem estava esperando algo “água com açucar”. Allen mostra que, não adianta sonhar e idealizar romances, sempre vai ter alguém pra te passar a perna e te colocar de novo com os pés no chão.
Misturando realidade com fantasia (a grande sacada do diretor), Allen cria uma incrível história de amor, sustentada por um roteiro muito bem feito, com falas que soam extremamente sinceras e doces aos ouvidos dos espectadores. Não é à toa que foi indicado ao Oscar de Melhor Roteiro Original. A direção também merece destaque: A história é linear e b/muito em conduzida por Allen. Esse é o segundo filme de sua carreira em que ele não atua (o primeiro havia sido “Interiores”, de 1979). Acredito que esse fato tenha colaborado para que a direção e o roteiro saíssem com tanta perfeição. Aliás, merece destaque o fato de que as cenas do mundo real eram coloridas, enquanto as cenas do filme fictício eram em preto-e branco. Esse contraste é interessantíssimo e um dos pontos fortes da produção. Dando sequência às suas constantes parcerias de sucesso, esse filme também tem Gordon Willis fazendo a direção de fotografia e Susan Morse na montagem.
As interpretações dos atores merecem ser mencionadas: Mia Farrow está encantadora com sua Cecília doce, romântica, de fala calma, idealizadora e sonhadora. Quem já se imaginou vivendo um romance típico dos filmes de Hollywood certamente vai se identificar com a protagonista. Danny Aielo desperta o ódio na platéia com seu jeito grosseiro e estúpido de tratar Cecília. Além do seu machismo e desinteresse pela jovem. Já Jeff Daniels arrasa com dois personagens bem distintos: seu Tom é romântico, sonhador e prático. A cena em que Tom tenta pagar o jantar do casal com dinheiro de cinema é divertidíssima (aliás, todas as cenas das trapalhadas do personagem no mundo real são boas). Já Gil é uma apologia aos atores egocêntricos e exibidos que existem aos montes em Hollywood. Mais preocupado em salvar sua carreira com o escândalo do personagem à solta, Gil não mede esforços para colocar Tom de novo dentro do filme.
A Rosa Púrpura do Cairo é, sem dúvidas, um dos grandes clássicos do cinema mundial. Vale a pena ser visto e revisto quantas vezes quiser. Eu poderia ficar horas aqui falando de tantos outros detalhes interessantes do filme. Mas prefiro que vocês fiquem com o gostinho e com a vontade de mergulhar nessa história de romance e fantasia. Coisas que só Woody Allen pode nos proporcionar!
Para finalizar, deixo vocês com as palavras do mestre sobre sua obra: "O encanto da imaginação em oposição à dor de viver é um tema recorrente em meu trabalho, mas eu nunca tinha percebido isso antes. E foram alguns críticos e amigos que me chamaram a atenção. ‘A Rosa’ é aparentemente a mais recente expressão dessa minha preocupação, como foram também "Sonhos de um Sedutor", "Zelig", "Memórias" e o livro "The Kugelmass Episode". Acho que desta vez tratei o tema de uma maneira mais divertida do que consegui fazer antes".
Para finalizar, deixo vocês com as palavras do mestre sobre sua obra: "O encanto da imaginação em oposição à dor de viver é um tema recorrente em meu trabalho, mas eu nunca tinha percebido isso antes. E foram alguns críticos e amigos que me chamaram a atenção. ‘A Rosa’ é aparentemente a mais recente expressão dessa minha preocupação, como foram também "Sonhos de um Sedutor", "Zelig", "Memórias" e o livro "The Kugelmass Episode". Acho que desta vez tratei o tema de uma maneira mais divertida do que consegui fazer antes".
Por Tabata Viapiana
ótima leitura tabata!
ResponderExcluirlastimo vcs não fazerem o exercício a partir dele...aliás, ainda não entendi porq...no caso, porq optaram por annie hall. algo a ver com o roteiro?
então profe, na verdade também tem a ver com o roteiro, mas não é só isso.. a gente optou pelo annie hall mais pelas premiações que o filme recebeu (os 3 Oscars) e também por ter sido com esse filme que o Allen recebeu suas primeiras indicações ao Oscar. Além de que foi o filme que levou ele ao ponto mais alto de sua carreira até então! Quem sabe numa próxima a gente trabalhe A Rosa Púrpura do Cairo, que é tão importante pra carreira do Allen quanto o Annie Hall!
ResponderExcluirTabata
ok
ResponderExcluirna verdade, estao entre os meus 3 filmes preferidos dele...os que mais estudei, especialmente a rosa.